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Mais uma vez é Páscoa! Ainda ontem era Carnaval, penso. A cada dia que passa, minha percepção do tempo toma novas dimensões. Tenho a sensação constante de que o tempo se esvai de minhas mãos, sem que sequer as pessoas dele possam se dar conta completamente. Não digo isso como quem se lamenta, mas como quem constata algo irrefutável.

Então, novamente, na história do mundo cristão, é Páscoa. Penso nessa data tal como a vivenciei em minha infância, e em como a vivencio atualmente. É um paradoxo, mas tudo está tão igual e ao mesmo tempo, tão diferente. Lembro-me, com certa nostalgia, dos meus tempos de criança, nos quais nem havia tanta variedade de ovos de chocolate, muito menos ovos recheados de brinquedos.

Eu costumava esperar o coelhinho, uma espécie de coelho mágico, deixasse, na beira da minha cama, um ovo colorido, que seria devorado aos pedacinhos, até acabar. Se não me falha a memória, muito mais me importava o tamanho do ovo do que qualquer outra coisa, pois era mais chocolate! Não sei se isso é próprio daqueles de quem o tempo se apropria, mas parece-me que eram tempos mais simples.

Naquela época, costumávamos, minhas irmãs e eu, ganhar também pequenos ovinhos, maciços, guarda-chuvinhas e até mesmo coelhos de chocolate, de um tio-avô querido, já falecido. Morando em outro estado, nós esperávamos, todos os anos, que ele chegasse de viagem e começasse a distribuição das guloseimas. Esse mesmo tio também trazia quilos e mais quilos de bacalhau. Fazíamos uma bacalhoada que ocupava muitas panelas e muitos estômagos. Era uma grande festa, essencialmente para nós, as crianças, que ajudávamos a descascar batatas, ovos cozidos e pequenas cebolas, sem fazermos a menor idéia de que um dia, tudo restaria apenas em nossas mentes e corações.

O tempo, que oferece dádivas quando se chama presente; sonhos, quando se chama futuro; e saudade, quando se chama passado, levou muitas das pessoas que faziam parte das nossas comemorações de Páscoa, como meus avós, tios-avós, amigos e até mesmo alguns primos. É certo que outros tantos chegaram, como deve ser a vida, que permanece, com todos os seus acertos e desacertos, boa, mas também é certo que não é, como nem poderia ser, igual ao que um dia foi. Ainda há muitos abraços, ao som de muitos risos, mas não os mesmos abraços, tampouco as mesmas risadas.

Hoje, em que há tantos tipos de ovos de Páscoa, de todos os sabores, tamanhos, cores e formas, não há mais o que procurar ou o que esconder, pois não sei mais onde mora o coelhinho, suspeitando que ele se encontre em algum lugar entre meu presente e meu futuro. Agora, em que aproveito o feriado apenas para descansar, para estar com alguns amigos ou mesmo visitar parentes, eis que sou eu quem mora longe, tudo tem outro sabor. Vivo no momento em que eu faço as vezes de coelho para as crianças da família.

Minha percepção do tempo, que há muito se alterou, apenas me demonstra que ele passou e que não cessa de fazê-lo, a todo instante. Como se o coelho da Páscoa fosse substituído pelo coelho da Alice, lembrando-me de que é tarde, é tarde, é muito tarde... Domingo, entretanto, quando o dia nascer, talvez eu me esqueça de que não sou mais criança e, em um gesto de passado, procure, tateando minha cama, na esperança de que o coelhinho da Páscoa tenha passado por ali, só para me lembrar de que eu ainda posso alcançá-lo, nem que seja em minhas lembranças...