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Sempre que posso, esqueço-me de pensar na morte ou em envelhecer. Na verdade, evito fazê-lo, até porque nada disso adianta. O tempo não vai mudar porque eu vou me preocupar com ele, nem mesmo retroagir por essa atividade. Ao contrário, tempo será desperdiçado sendo pensado. Tempo se gasta vivendo e, na conta do tempo, não há abatimento das horas não usufruídas...

Ainda que eu tente viver, quase sempre, dessa forma, é inevitável que, em determinado momento, a pessoa comece a notar que o tempo está passando, deixando um pouco mais evidentes os seus rastros, os seus caminhos pela vida. Por óbvio, não faz sentido pensar no tempo quando ele infinito, quando tudo ainda é broto e flor.

Certo dia desses, conversando com uma senhora que eu muito estimo, ouvi dela, ao comentarmos o que ocorrera com ela, eis que tivera uma queda recente, resultante em uma costela quebrada.

_Sabe o que eu acho que é, Cinthya? Eu preciso me acostumar que não posso fazer tudo rápido como sempre fiz; tudo às pressas. Tenho que fazer a ligação correta entre meu corpo e minha cabeça...

Pensando que ela já conta com 89 anos, a conversa, confesso, ficou martelando nas minhas ideias e eu me lembrei, na mesma hora, da minha já saudosa avó, Dona Nena, que um dia teve comigo uma conversa que eu jamais esquecerei:

_ Minha filha, eu nem vi o tempo passar. Em um dia eu tinha 7 anos e no outro, assim, do nada, eu tinha 70...

E isso, para mim, serviu como uma mistura de mantra e profecia. Entre essa conversa, tanto tempo já se passou, levando-a embora e deixando todos os três filhos dela já passados em mais de seis décadas. E eu, nem dele vi a sombra ou pude dar conta das horas. O tempo, simplesmente, fluiu por nós, como seiva fina, transparente, que corre em único sentido...

Nessa semana, em que eu mesma completei nova década vivida, o tempo começou a me perguntar a que vim, e o que dele tenho feito. Não pude responder de pronto e nem posso fazê-lo ainda. Nem sei se, à semelhança de minha amiga, eu tenho noção do que hoje ele representa, se já me limita em algo, por menor que seja. Pensar no tempo, de alguma forma, é pensar na morte, alheia e própria, mas é também pensar na vida, na vida que há a ser vivida e no tempo que, na risca de nossas contas vãs, ainda resta a viver...

No vão das horas, entre o trabalho e as preocupações, que Deus me dê sabedoria para entender o que, de fato, compõe a vida dos filhos de Deus nesse mundo e, de acordo com essa compreensão, permita-me continuar sendo feliz...