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O inverno ainda não se instalou oficialmente, mas ao menos aqui na capital paulista o frio já se fez anunciar. Embora a temperatura oscile um pouco, houve dias realmente bem frios, nos quais o vento fazia doer o rosto. Em dias assim, fica muito difícil não pensar naqueles que não tem como se aquecer, naqueles que vivem à margem da sociedade e até da solidariedade.

Por certo que a questão social é muito complexa e que não há uma causa única, um culpado a ser identificado. O fato é que enquanto se discutem teorias, analisam estatísticas e estratégias, pessoas e animais pagam na pele o preço da indiferença e do desamor. A fome, o medo e o desalento não esperam por decisões burocráticas, bem como a vida e a morte seguem seus próprios planos.

Eu mesma sou contra a política do simples doar de coisas de forma indeterminada, mas não acho correto não fazer nada, a despeito de minhas convicções pessoais. Todos os anos, desse modo, eu me reúno a amigos para arrecadação de cobertores que serão destinados a asilos, albergues e a abrigos de animais. Saio pedindo no meu local de trabalho, nas minhas redes sociais e aos meus amigos de uma forma geral. Quase sempre, no entanto, são os mesmos que colaboram. Não é fácil conseguir adesões efetivas a campanhas sociais.

Reconheço que não dá para ajudarmos todas as causas, bem como nem sempre temos como dispor de dinheiro sobrando. Nesse caso, por exemplo, cada cobertor custava menos do que dez reais e eu sei que nos ambientes nos quais circulo essa quantia não desfalca ninguém. Em muitos casos, realmente, trata-se de pura indiferença.

Importante ressaltar que dinheiro não é a única forma de auxiliar, pois sempre se faz necessário que além vá buscar ou levar coisas, a dar alguma espécie de suporte logístico. E essas atividades são tão importantes quanto contribuir financeiramente. Na Campanha do Agasalho qualquer roupa usada e em bom estado que possa aplacar o frio alheio é muito benvinda. Basta olharmos em nossos guarda-roupas que certamente encontraremos por lá algo que não usamos mais e que pode aquecer outra pessoa.

O que eu acho irônico é que as pessoas que mais criticam opiniões mais duras em determinados assuntos, que sobem em um tijolinho para falar de  política e que supostamente falam em nome dos pobres, simplesmente não se mexem quando o assunto é solidariedade, quando se trata de se desprender minimamente em prol do semelhante. Tais pessoas não doam valor algum, não “perdem” seu tempo separando aquilo que não lhe serve mais, bem como não abrem mão de nenhum conforto, seja o adquirido ou o pretendido. Fácil ser bom assim, só de carteirinha.

Então, tudo bem se alguém não se abala em face da dor e do sofrimento alheio, mas ao menos que deixe a hipocrisia de lado. É preciso ser coerente com as próprias opções. Só não dá para aceitar o dedo em riste de quem nada faz, de quem acredita que se passa impune por essa vida.

Só queria agradecer a todos que ajudaram, aos que ajudam, seja do jeito que for, às diversas causas pelas quais se vale a pena e se faz necessário lutar por esse mundo afora. Não vamos mudar o mundo só porque fizemos alguma coisa em prol do outro, mas estou certa de que os 150 cobertores irão encontrar seus donos e quem os faça por merecer. Talvez alguém os troque por drogas, os jogue fora, mas talvez alguém não sofra ou não morra por conta da solidariedade de outros alguéns.

O verbo, sem ação, nada realiza.