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Eu preciso confessar que sinto um certo desconforto diante dos inúmeros e variados comentários sobre a morte da vereadora do Rio de Janeiro. Embora eu tema ser mal interpretada quanto ao que vou escrever, não consigo deixar de fazê-lo.

Pode até ser que seja ignorância de minha parte, mas até então eu jamais tinha tomado conhecimento da existência dessa moça, nem mesmo do ativismo dela pelos Direitos Humanos. Acredito, ainda, que a imensa maioria dos brasileiros também não o soubesse. Registro até que é sempre lamentável, por sinal, quando alguém que defende boas causas não é tão conhecido como quem se notabiliza pelas partes do corpo que exibe em rede nacional.

Toda e qualquer vida perdida para o crime deve ser lamentada profundamente, assim como todo e qualquer crime deve ser apurado com o máximo rigor possível. Nesse sentido, não há dúvidas de que quem retirou a vida da referida vereadora, bem como do motorista que com ela estava, deva receber a punição estatal, além da divina.

O que me causa espanto é o oportunismo que surge em situações como essas. De repente é como se todo mundo sempre tivesse dado a ela a visibilidade que agora estão dando, bem como o apoio efetivo para a causa por ela defendida. Pergunto-me, humildemente, se as mesmas emissoras que agora estão televisionando e lucrando com a morte dela, outrora lhe ofereceram algum tipo de apoio.

Isso sem dizer da quantidade de absurdos nas redes sociais. Gente colocando mensagens como se tivessem perdido um ídolo, quando sequer sabiam de quem se tratava até então. Todos os dias, curiosa e tristemente, homens e mulheres, brancos ou negros, sucumbem pela violência, pela miséria, pelo descaso, mas ninguém lhes dá esse mesmo direito de glória post mortem.

E que não me venham dizer, como já andei lendo, que andam querendo comparar mortes ou ranquear suas importâncias. Ao contrário, é exatamente por não se tratar disso é que fico perplexa diante do caráter midiático que se dá a tudo isso. Até nome de praça já está prometido em nome e lembrança da vereadora e aqui entre copas eu fico me perguntando se ela que, como dizem, defendia a igualdade e os direitos humanos, estaria, de fato, orgulhosa do palanque que armaram em torno de sua morte, como se outras tantas vidas fossem menos dignas de manifestações de apoio.

Outra questão é que grande parte de quem agora fica levantando bandeiras nunca fez nada, verdadeiramente, por qualquer causa humanitária, à exceção de seus próprios interesses. Escrever textos longos nas redes sociais, vestir camisetas de apoio ou se dizer indignado, pouco ou nada faz pelo outro, exceto, talvez, ao próprio ego.

Coragem de fazer, de defender alguma coisa, de desapegar, de doar-se ao próximo, de colocar-se em risco, verdadeiramente, é coisa que se faz na vida e não apenas atrás de uma câmera ou de um computador. Nesse tocante, assim como tantas e tantos outros que fazem ou fizeram algo pelo bem do próximo, é mais do que lamentável a perda de uma voz. A morte, contudo, não nos diferencia, mas nos iguala...