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O gato se esticou inteiro como de costume e pulou da cama. Quase sempre dormia junto com Ana e João, principalmente quando estava frio. Eles o deixavam quente, mesmo que às vezes interrompessem seu sono, porque os humanos tinham o péssimo hábito de mexer as pernas enquanto dormiam.

Correu para caixa de areia e tratou de se aliviar. Era uma criatura de hábitos. De certos luxos jamais abriria mão, como ter uma caixa de areia sempre limpa e disponível. Como fome, o gato procurou a vasilha de comida, mas a encontrou tão vazia quanto estava seca a fonte de água. Teriam as pessoas se esquecido dele? Primeiro acordou Ana, roçando a barriga na mão dela. Depois foi a vez de João. Fora preciso algo mais radical como lamber as orelhas do rapaz.

Com a família desperta, era momento do desjejum. Depois da ração, todas as manhãs ele ganhava petiscos deliciosos e que o deixavam cheio de energia, pois precisava dormir muitas horas durante o dia. Naquele dia, no entanto, algo estava estranho. Ninguém lhe oferecera nada, sequer um mísero agrado.

Choramingou um pouco, fez gracinhas e até mesmo se jogou aos pés do casal, mas ninguém lhe deu de comer. Ganhou carinhos, afagos e elogios. Mais do que o normal, inclusive. Começou a ficar desconfiado. Alguma coisa estava bem estranha. Foi quando a viu: a caixa, seu algoz.

Olhou para os lados procurando uma rota de fuga, em genuíno desespero, mas tinham sido mais rápidos do que ele. As janelas e a portas estavam fechadas. Se ao menos fosse capaz de escalar paredes até o teto, poderia ter alguma chance, mas nem teve tempo de se mover, pois um par de mãos o agarrou pelo pescoço e quando se deu conta, estava dentro da caixa.

Não conseguia entender em que momento as coisas tinham dado errado. Ele não tinha mais arrancado penas do periquito, pelo menos não naquela manhã. Era um bom gato, só exigindo mesmo as regalias que lhe eram de direito, por estirpe. Ser aprisionado naquela caixa era humilhante, uma cela de feras.

O casal conversava com o gato fazendo aquelas vozes que se usa com muitos animais de estimação. Tentavam acalmá-lo, explicando que tudo daria certo e seria o melhor para ele. O felino se debatia enlouquecido e inconsolável. Ainda estava com fome e aquilo não passaria em branco! Haveria consequência e o periquito que se cuidasse.

Poucos minutos depois e o bichano estava no veterinário. Não adiantava falar para os humanos que ele não precisava de banho, já era auto limpante e todas as coisas que eles deveriam saber, mas que preferiam ignorar. Num repente tudo ficou escuro e o gato foi transportado para o mundo dos sonhos. Por fim era tratado como rei, quase um leão, respeitado e cercado das mais belas fêmeas.

Acordou já em casa, sob os olhares preocupados dos donos. Vestia uma roupa ridícula e sentia-se sonolento, meio sem controle das patas. Não fazia ideia do que teria lhe acontecido. A moça o pegou no colo, fazendo-lhe carinho e o enchendo de beijos. Finalmente ele estava recebendo o tratamento merecido. Lá o poleiro o periquito o olhava meio enviesado.

Assim que se sentiu melhor, saiu para explorar seu território. Talvez devesse fazer uma visitinha àquele periquito ordinário. Como todo gato que se preze, primeiro foi se higienizar. Lambeu as patas e depois foi tentar se livrar da roupa que vestia. Precisava acessar partes mais íntimas que não estavam descobertas. E foi em vão que as procurou. Não estavam mais ali! Onde tinham ido parar?? Fora mutilado covardemente enquanto estava inconsciente. Não seria mais o leão entre as leoas, mas o periquito ia pagar caro por isso.