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Ela chegou em casa há poucas semanas, enfim. Tentamos arrumar um local para acomodá-la de forma adequada, como merece. Com mais de cem anos, embora ainda esteja conservada, é delicada na essência, frágil pelo tempo que carrega. Aqui não dispomos de muito espaço, mas após algumas mudanças e adaptações, foi possível recebê-la.

Olho para ela todos os dias, sobretudo pelas manhãs e fico tentando imaginar as memórias que carrega, as muitas histórias que protagonizou e os tantos fatos que por certo presenciou. Nada pode, entretanto, contar-me. Calada, altiva, permanece guardiã sigilosa de retalhos de vidas alheias.

Pouco temos de registro sobre suas origens, exceto que esteve com uma de minhas bisavós maternas. Juntas, vestiram os sonhos de outros. O que eu soube, pela minha tia, é que de ternos a vestidos de noiva, além de vestimentas para o dia a dia, muita coisa foi feita pelas duas.

Conheci minha bisavó Leocádia, que faleceu quando eu tinha quase sete anos. Recordo-me de quando começou a se esquecer das coisas, perdida entre lembranças antigas e fatos novos. Mãe de meu avô paterno, morava em uma casa de esquina, na cidade de Birigui, no estado de São Paulo. Não sei, agora, no entanto, precisar há quanto tempo já estavam juntas, minha Bisa e ela. Da velha senhora, naquele local, assim, tenho somente vaga recordação.

Em algum momento após o falecimento da Vó Leocádia, a companheira dela, já aposentada, foi morar com a irmã de minha mãe, minha tia Margareth. Muito anos depois, consultada se eu a queria comigo, aceitei de pronto. No entanto, outros tantos anos se passaram sem que eu a trouxesse para casa. A pandemia também não facilitou as coisas, mas não foi a única responsável.

Um dia fui por fim buscá-la, mas novamente ficou pelo caminho, morando algumas semanas com uma de minhas irmãs. Agora está comigo, mas sei que vai sobreviver a mim e espero que um dia encontre morada com um de meus sobrinhos. Compete a mim passar a frente sua história, aquela que sei e a que imagino, na esperança de que possa cativar outros corações, permanecendo na mesma família.

Gerações se vestiram pelas roupas confeccionadas na antiga máquina de costura que herdei de minha Bisavó. Muitos foram os filhos que ela teve, dezenas os netos e bisnetos. Fico imaginando as razões para a máquina de ter vindo parar em minhas mãos e isso é algo que provavelmente jamais compreenderei.

Muito bem cuidada pelos meus tios durante sua estada lá, tem a caixa de madeira envernizada, brilhante. Conserva bela aparência, mas não é mais capaz de costurar. Merece o descanso daqueles que fizeram sua parte no mundo, que escreveram através das tessituras das linhas, histórias de muitas vidas.

Há alguns anos aprendi a costurar, embora o faça apenas para pequenas coisas e em uma máquina moderna, portátil e que muito dificilmente viverá para além de mim. Consigo, assim, sem muita dificuldade, imaginar minha Bisavó passando a linha pela agulha, colocando o tecido e dando a ele forma. Tarde da noite, em uma casa que sempre cheirou a café, movimentando as engrenagens de sua máquina Singer, com a força dos pés, quantas coisas deviam lhe passar pela cabeça, nessa vida de rasgos e emendas.

A velha senhora, que agora comigo faz morada, é um pedaço de memórias afetivas, traço de uma família, parte de uma casa que sobreviveu ao tempo e que espero me sussurre, ainda que em sonhos, as tantas histórias que guarda consigo.

Cinthya Nunes é jornalista, advogada, professora universitária e sim, às vezes conversa com os objetos, mas só com os interessantes – Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo./www.escriturices.com.br